Últimas Palavras De Vaqueirinho Antes De M0rrer Atac4do Por Le0a São De Partir O Coração “Eu Quero Ser… Ver Mais
A morte de Gerson de Melo Machado, conhecido como Vaqueirinho, voltou a chamar atenção para uma história marcada por fragilidade emocional, pobreza extrema e falta de apoio familiar. O jovem, que invadiu o recinto da leoa Leona em João Pessoa, tinha 19 anos e cresceu longe de qualquer estrutura que pudesse garantir acompanhamento adequado. Para quem acompanhou sua trajetória, as circunstâncias do episódio deste domingo não surpreenderam pela impulsividade, mas pela tragédia que encerrou um desejo repetido por ele desde cedo.
Segundo relatos da conselheira tutelar que o acompanhou por oito anos, Gerson falava constantemente sobre o sonho de ir à África para “domar leões”, algo que tratava com convicção infantil e esperança persistente. Era uma ideia que surgia nas conversas e que, ao longo do tempo, tornou-se parte de sua identidade pessoal. Mesmo sem compreender os riscos, ele idealizava grandes felinos como animais que apenas precisavam de alguém que os entendesse.
Essa fantasia, segundo profissionais que já o atenderam, se confundia com sua própria realidade emocional. Vindo de uma família marcada por transtornos mentais e extrema vulnerabilidade, Gerson buscava símbolos de força e pertencimento, e os leões eram essa representação. Ao longo dos anos, a falta de acompanhamento psiquiátrico adequado alimentou essa visão romantizada e perigosa.
A tragédia que encerrou sua vida, portanto, aparece como o ponto final de um percurso que mesclou abandono, desproteção e sonhos que nunca receberam orientação.

Uma infância interrompida por violações e um diagnóstico que demorou a ser reconhecido
Gerson foi encontrado pela primeira vez por agentes da Polícia Rodoviária Federal quando tinha apenas dez anos, caminhando sozinho em uma rodovia. Desde então, passou a integrar a rede de proteção da infância, mas isso não foi suficiente para interromper o contexto de negligência que o acompanhava.
Nascido em uma família destituída de condições emocionais e financeiras, viveu entre abrigos, fugas e tentativas de reencontro com a mãe, que possuía quadro de esquizofrenia. Mesmo destituída do poder familiar, ela ainda era procurada por ele, que mantinha um laço afetivo apesar do abandono.
Os irmãos de Gerson foram adotados, mas ele permaneceu institucionalizado. O possível transtorno mental o colocava no grupo de crianças menos procuradas nas adoções, o que acentuou ainda mais sua sensação de solidão.
O diagnóstico oficial só veio na adolescência, quando ele entrou no sistema socioeducativo. Até então, debates entre profissionais de saúde questionavam se se tratava de transtorno psiquiátrico ou apenas comportamento desorganizado.
O desfecho que interrompeu um sonho infantil e reacendeu debates sobre vulnerabilidade social
A invasão ao recinto da leoa ocorreu rapidamente, segundo a administração do parque. Gerson escalou a estrutura de mais de seis metros, passou pelas grades de segurança e utilizou uma árvore para entrar no espaço do animal. Em poucos instantes, o episódio se transformou em tragédia.
A Prefeitura de João Pessoa afirmou que todas as normas técnicas foram seguidas e que a investigação já está em andamento. O parque foi fechado após o ataque e permanece sob apuração das autoridades.
Para quem acompanhou sua vida, o episódio tem um desfecho profundamente simbólico. O sonho de domar leões, mencionado por ele por anos, encontrou um limite duro na realidade que ele nunca teve condições emocionais de compreender.
A conselheira que o acompanhou lamentou publicamente, dizendo que Gerson “não tinha juízo suficiente para entender que leões não se domam com desejo, mas com conhecimento e segurança”.





